Conversa de Comadre
parto . pós-parto . amamentação . criação dos filhos
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
Consultoria em Amamentação
Retornando de dias intensos de aprendizagem no GAMA (São Paulo). É sempre maravilhoso trocar experiências com colegas do Brasil todo (eu era quase a única do nordeste) e aprender com profissionais de referência como Ana Garbulho e Aline Belini. E renovar as energias pra seguir na missão do Apoio à Amamentação!
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
Doula: ciência e sensibilidade
por Carla Weyne, psicóloga e doula pós-parto da equipe Mãe do Corpo
A Doula é uma profissional que acompanha
a gestação, o parto e o pós-parto, oferecendo à gestante (e sua
família) apoio físico e emocional. Ao longo
da história da humanidade, as mulheres espontaneamente passaram a
apoiar umas às outras no momento do parto e pós-parto. Era uma tarefa
realizada por irmãs, vizinhas, amigas, comadres… Não havia uma
qualificação específica pra isso, e essa função não se constituia como
uma profissão, mas como uma atividade social presente nas comunidades.
Porém,
com a medicalização da assistência ao parto, a partir da qual o cenário
predominante do parto passou a ser o hospital, os médicos substituindo
as parteiras, e a técnica e a tecnologia passando a direcionar a atenção
à parturiente, criou-se uma lacuna. E a falta de alguém que pudesse
oferecer o suporte emocional à gestante passou a ser percebida inclusive
como um obstáculo a um bom andamento do trabalho de parto e a uma
experiência de parto satisfatória para a mãe.
Pesquisas¹ já foram realizadas e seus resultados mostram que a presença da doula como acompanhante de parto tem como resultados: a diminuição da duração do trabalho de parto; maior chance de ter parto vaginal espontâneo; menor necessidade de analgesia de parto; redução da taxa de cesariana, uso de ocitocina sintética e de instrumentos como o fórceps; maior a satisfação da mulher com a sua experiência de parto; e redução dos níveis de ansiedade e maior a sensação de segurança e autoconfiança nas mulheres.
O trabalho da doula se inicia ainda durante a gestação, quando ela pode colaborar com orientações baseadas em evidências científicas sobre os processos do parto e pós-parto, tirando dúvidas da gestante, ajudando a lidar com algumas inseguranças e também dando orientações sobre as condições da assistência ao parto em sua realidade, inclusive contribuindo com a elaboração do seu plano de parto, que é um documento que descreve o que a mulher deseja em relação à assistência ao seu parto. A doula pode realizar um belo trabalho, individual ou em grupo, de preparação física e emocional para o parto e o pós-parto, além de oferecer orientações sobre amamentação e cuidados com o bebê, serviço que tem um importante caráter preventivo das dificuldades que podem surgir no período pós-parto.
Durante o trabalho de parto, a doula acompanha a mulher desde o momento em que ela sentir necessidade, podendo ir à sua casa e permanecer com ela também no hospital, se for o caso de um parto hospitalar. Em nossa concepção, o trabalho da doula se inicia com o favorecimento à criação de um ambiente e uma atmosfera de segurança, privacidade e entrega. A partir daí, a doula oferece o encorajamento psicológico e suporte físico à gestante. Em sintonia com as necessidades e possibilidades de cada mulher, a doula pode sugerir posturas e movimentos para favorecer o trabalho de parto e usar métodos não farmacológicos para o alívio da dor, como banhos, compressas, massagens e outras técnicas de terapias holísticas para as quais possua formação específica (acupuntura, cromoterapia, yoga, fitoterapia etc). Outra contribuição importante da doula se dá no momento imediatamente posterior ao nascimento (se possível toda a primeira hora), facilitando os primeiros contatos entre mãe e bebê e apoiando também o início da amamentação.
No pós-parto, o trabalho da doula também é muito importante, pois é um período de muitas transformações para a mulher que se tornou mãe (ou que se tornou mãe pela segunda, terceira… vez) e para sua família também. Então a presença da doula, oferecendo apoio, auxiliando com o processo de amamentação, que apresenta vários desafios nesse início, e compartilhando também a experiência que adquiriu sobre a maternidade, contribuem para deixar a mulher mais tranquila e fortalecida. Nesse momento, a doula oferece apoio físico e emocional à amamentação, com orientações sobre uma pega mais favorável, a descida do leite, prevenção de fissuras, bem como fortalecimento da sua auto-confiança para amamentar. Oferece também apoio aos cuidados com o bebê, com orientações sobre banho, sono, prevenção de “cólicas”, bem como para o fortalecimento do vínculo mãe-bebê e formas respeitosas de cuidar do seu filho. A doula proporciona ainda orientações sobre a recuperação da mãe no pós-parto, seja após um parto vaginal ou cesárea.
Hoje a profissão de doula já é reconhecida no Brasil e
consta no catálogo de ocupações do Ministério do Trabalho. A atuação da
doula está pautada nas evidências científicas em obstetrícia; em uma
valiosa parceria com os outros profissionais
de assistência ao parto; no conhecimento dos processos fisiológicos e
culturais relacionados à gestação, parto, pós-parto e amamentação; e
especialmente em uma sensibilidade cultivada ativamente e um compromisso
ético primordial com a autonomia e o protagonismo da mulher (e sua
família) na vivência de seu ciclo gravídico puerperal.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
Lições do Pós-parto
No encontro com cada mãe, aprendemos algo sobre a maternidade. Esses dias aprendi que força e fragilidade convivem no pós-parto (e por toda a nossa vida). A "capacidade de superar" caminha lado a lado com a "possibilidade de falhar". E como é importante que ambas possam ser acolhidas!
No encontro com cada mãe, acolho sua humanidade inteira. E o humano é contraditoriamente forte e frágil, feliz e melancólico, incansável e exaustivo, amoroso e (pasmem) mesquinho.
Acolher nossas sombras nos permite ver a luz com mais clareza. Esse é o grande paradoxo. E como diz Laura Gutman, a Maternidade é uma grande oportunidade para nos encontrarmos com nossa sombra. Fazer as pazes com ela torna mais leve o fardo do ser mãe, porque deixamos de lado o peso da perfeição.
* Na foto de Roberta Martins Fotografia, o olhar profundo do Bernardo da querida Samantha Pinheiro.
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
Parto Normal ≠ Parto Humanizado
Por Carla Weyne, psicóloga, doula, educadora e mãe do Benki
Você sabe qual a diferença entre Parto Normal e Parto Humanizado?
Parto Normal é o termo utilizado para descrever o nascimento de um bebê que acontece pela via vaginal (em oposição à cirurgia cesariana, na qual o nascimento acontece pela via abdominal). Esse termo não define o tipo de assistência ao parto oferecida, nem traduz como foi o processo do parto, apenas indica por onde o bebê nasceu. Na denominação Parto Normal cabem uma assistência respeitosa e aquela permeada por violência obstétrica, desde que ambas tenham resultado no nascimento do bebê pela vagina.
Hoje, a conduta predominante na assistência ao Parto Normal no Brasil se pauta em uma série padronizada de intervenções, de ordem farmacológica (ocitocina sintética, anestesia etc.) e mecânica (posição horizontal, rutura artificial da bolsa das águas, episiotomia, manobra de Kristeller etc.), realizada pelo profissional/equipe sem atender a nenhuma evidência dos benefícios da aplicação de cada procedimento, e na maioria das vezes sem consultar a gestante. Essa forma de assistência, além de aumentar desnecessariamente os riscos de complicações para mãe e bebê, colocam a mulher na condição de Objeto da assistência, da qual os sujeitos são os profissionais da equipe.
Parto Humanizado não é sinônimo de parto na água, parto em casa nem parto zen. O Parto Humanizado é a síntese da proposta de Humanização da Assistência ao Parto, que busca superar a dicotomia Parto Normal X Cesárea, ao oferecer uma assistência pautada:
1. em evidências científicas (a realização de cada procedimento é avaliada pesando-se riscos e benefícios, de acordo com estudos mais atuais;
2. no protagonismo da mulher (que assume a condição de Sujeito, ao opinar também sobre a realização dos procedimentos, assumindo a responsabilidade por suas escolhas);
3. em uma visão integral e singular do humano/da mulher (que inclui aspectos biológicos, emocionais, culturais, espirituais, sociais...);
4. na atuação de uma equipe multidisciplinar, com ênfase na participação da doula e predominância de enfermeiras obstetras e obstetrizes (parteiras profissionais) nos partos sem complicações.
O Parto Humanizado pode acontecer em casa ou num hospital do SUS, pode ser na água ou sobre uma esteira de palha, pode ser ao som de mantras ou de rap (ou samba, ou MPB, ou canto de passarinhos, ou qualquer outra trilha sonora ou mesmo sem nenhuma). O que define o Parto como Humanizado é o tipo de assistência que é oferecido pela equipe e pela instituição e a relação que se constrói entre estes e a gestante/família.
Diante dessas definições, percebemos que não basta “estimular o parto normal". Esse tipo de assistência também está falido, e muitas vezes acaba levando a cesáreas iatrogênicas. O que precisamos é de um novo paradigma de assistência ao parto, que compreenda o parto como um evento natural e fisiológico e toda mulher como um sujeito capaz de parir (mas também suscetível a patologias e sofrimentos psicológicos, claro). Esse é o ponto de partida do Paradigma da Humanização.
terça-feira, 20 de outubro de 2015
Plano de Parto
Por Carla Weyne, psicóloga, educadora e consultora em amamentação da Equipe Mãe do Corpo
O plano de parto é um instrumento que tem sido bastante usado por gestantes e profissionais na busca de uma assistência humanizada ao nascimento. Ele é um documento que expressa as escolhas da gestante, e assim concretiza um dos pilares do paradigma da Humanização da Assistência ao Parto: a autonomia e protagonismo da mulher. Mas existem também alguns equívocos relacionados ao plano de parto, que muitas vezes mais complicam a relação entre gestantes e profissionais do que facilitam o diálogo.
O plano de parto não é:
- um cardápio, com opções de produtos a escolher na assistência ao parto
- uma prescrição ou norma, que indica exatamente o que o profissional (obstetra ou enfermeira obstetra) irá fazer
- um check list, com os itens necessários a um “parto humanizado”
Em nossa prática de acompanhamento da gestação e parto na Equipe Mãe do Corpo, compreendemos o plano de parto como um valioso instrumento de reflexão e diálogo. Ele possibilita à própria gestante (e os acompanhantes que ela escolher para estarem em seu parto) primeiro tomarem consciência a respeito dos processos e procedimentos envolvidos na assistência ao parto, seja hospitalar ou domiciliar, e a partir daí realizarem um planejamento da assistência ao seu trabalho de parto e parto, fazendo escolhas de forma consciente.
Em segundo lugar, o plano de parto é também uma ferramenta importante para promover e facilitar o diálogo (e possíveis “negociações”) com o profissional que irá realizar essa assistência, seja o pré-natalista, seja o plantonista do hospital. Assim, ajuda a construir uma relação mais horizontal entre gestante e equipe, incluindo o neonatologista (no que diz respeito aos procedimentos com o bebê) e o pessoal da enfermagem.
Você pode buscar exemplos de plano de parto na internet. Use-os não como modelos, mas como fontes de inspiração, para escrever o SEU plano de parto, que deve ser singular e único, como VOCÊ!
- um cardápio, com opções de produtos a escolher na assistência ao parto
- uma prescrição ou norma, que indica exatamente o que o profissional (obstetra ou enfermeira obstetra) irá fazer
- um check list, com os itens necessários a um “parto humanizado”
Em nossa prática de acompanhamento da gestação e parto na Equipe Mãe do Corpo, compreendemos o plano de parto como um valioso instrumento de reflexão e diálogo. Ele possibilita à própria gestante (e os acompanhantes que ela escolher para estarem em seu parto) primeiro tomarem consciência a respeito dos processos e procedimentos envolvidos na assistência ao parto, seja hospitalar ou domiciliar, e a partir daí realizarem um planejamento da assistência ao seu trabalho de parto e parto, fazendo escolhas de forma consciente.
Em segundo lugar, o plano de parto é também uma ferramenta importante para promover e facilitar o diálogo (e possíveis “negociações”) com o profissional que irá realizar essa assistência, seja o pré-natalista, seja o plantonista do hospital. Assim, ajuda a construir uma relação mais horizontal entre gestante e equipe, incluindo o neonatologista (no que diz respeito aos procedimentos com o bebê) e o pessoal da enfermagem.
Você pode buscar exemplos de plano de parto na internet. Use-os não como modelos, mas como fontes de inspiração, para escrever o SEU plano de parto, que deve ser singular e único, como VOCÊ!
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
O toque da doula
A doula é uma profissional que oferece apoio físico e psicológico à mulher, desde a gestação até o pós parto.
A doula não é o profissional técnico responsável pela assistência ao parto.
Ou seja: a doula não “apara menino”.
A doula não realiza procedimentos clínicos: ela não mede pressão, não ausculta o coração do bebê, não faz exame de toque.
A doula não “faz toque”.
O toque da doula é outro, bem outro.
A doula não é o profissional técnico responsável pela assistência ao parto.
Ou seja: a doula não “apara menino”.
A doula não realiza procedimentos clínicos: ela não mede pressão, não ausculta o coração do bebê, não faz exame de toque.
A doula não “faz toque”.
O toque da doula é outro, bem outro.
O toque da doula é o segurar na mão, e com isso transmitir segurança e (lembrar da auto-)confiança.
O toque da doula é a carícia no cabelo para relaxar ou aquela pressão forte que ajuda a aliviar as dores da contração que expande o corpo da gestante.
O toque da doula é a massagem suave nos seios, que ajudam a aliviar o ingurgitamento dos primeiros dias da amamentação.
O toque da doula é a empatia, e não é medido em centímetros nem em polpas digitais.
É um toque que se traduz em Presença (contínua), e com isso faz toda a diferença!
Deixemos o (exame de) toque para os profissionais habilitados: enfermeiras obstetras, obstetrizes, médicos obstetras. As doulas temos outras coisas com que nos (pre)ocupar.
Uma presença contínua que gera autononomia: esse é o nosso toque!
* Na foto de Roberta Martins, o toque da querida doula Karin Ballay no trabalho de parto de Ângela Pereira.
O toque da doula é a carícia no cabelo para relaxar ou aquela pressão forte que ajuda a aliviar as dores da contração que expande o corpo da gestante.
O toque da doula é a massagem suave nos seios, que ajudam a aliviar o ingurgitamento dos primeiros dias da amamentação.
O toque da doula é a empatia, e não é medido em centímetros nem em polpas digitais.
É um toque que se traduz em Presença (contínua), e com isso faz toda a diferença!
Deixemos o (exame de) toque para os profissionais habilitados: enfermeiras obstetras, obstetrizes, médicos obstetras. As doulas temos outras coisas com que nos (pre)ocupar.
Uma presença contínua que gera autononomia: esse é o nosso toque!
* Na foto de Roberta Martins, o toque da querida doula Karin Ballay no trabalho de parto de Ângela Pereira.
terça-feira, 25 de agosto de 2015
Maternidade e Sacrifício
Ser Mãe (e Pai) é fazer sacrifícios. Sacrificar noites de sono
cuidando quando o filho está doente, sacrificar noites de farra quando
apenas precisamos cuidar do seu sono, sacrificar viagens, agendas,
carreira profissional... Mas é necessário sacrificar muito mais que
isso...
É preciso dedicar-se ao Sacro-ofício de Cuidar. Para criar um filho precisamos sacrificar nossos conceitos, nossa forma de compreender mundo, nossas posturas arbitrárias e muitos de nossos hábitos. Precisamos sacrificar nossa arrogante visão adultocêntrica e ficar de joelhos para alcançar o seu olhar, fazer o exercício de empatia e buscar enxergar o mundo pelos seus olhos, e sentir a vida pelo seu coração.
É preciso dedicar-se ao Sacro-ofício de Cuidar. Para criar um filho precisamos sacrificar nossos conceitos, nossa forma de compreender mundo, nossas posturas arbitrárias e muitos de nossos hábitos. Precisamos sacrificar nossa arrogante visão adultocêntrica e ficar de joelhos para alcançar o seu olhar, fazer o exercício de empatia e buscar enxergar o mundo pelos seus olhos, e sentir a vida pelo seu coração.
Precisamos entregar em sacrifício a pessoa que um dia fomos, e deixar
brotar dessa nova (e sempre renovada) relação uma também nova
identidade. Renascemos a cada vez que uma criança nos tira a paciência,
nos faz sentir raiva ou medo, nos deixa sem resposta, sem ação... e nos
joga na cara nossa insegurança, fragilidade, nossas sombras, e assim nos
dá a grande oportunidade de encontrarmos com nós mesmos. E nos
refazermos.
Quando seu filho parecer estar com problemas, olhe para si mesmo. Procure o que precisa transformar, o que precisa de cuidado. Para criar uma criança, é preciso nos recriarmos. Sempre!
Quando seu filho parecer estar com problemas, olhe para si mesmo. Procure o que precisa transformar, o que precisa de cuidado. Para criar uma criança, é preciso nos recriarmos. Sempre!
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